Marisol sempre foi muito atenta a tudo ao seu redor. As
conversas com vô Luiz e vó Vilma despertavam nela o desejo de aprender mais e
mais porque era fácil entender as explicações carinhosas que lhe eram dadas.
Na verdade seus avós tinham plena consciência do quanto era
importante a orientação no bem a todos, em especial às crianças, e sendo aquela
menina de olhar esperto e cabeça cheia de cachinhos a neta querida, mais se
empenhavam em apresentar a ela o que estavam aprendendo ao longo da jornada
aqui na terra. Queriam que ela conhecesse ainda na infância o tesouro que
haviam levado tanto tempo para conhecer. Esse tesouro é o conhecimento que a
doutrina espírita proporciona. Tesouro esse que quanto mais se utiliza, mais rico
se fica. Estranho falar assim? Não. Quanto mais aplicamos em nossa vida o
conhecimento que a doutrina nos dá, mais ricos em bênçãos ficamos.
Marisol estava procurando o avô para esclarecer algumas de
suas dúvidas e encontrou-o sentado à mesa da cozinha catando feijão para ajudar
vó Vilma a fazer o almoço.
Marisol - Oi, vô.
Vô Luiz - Oi, Solzinha. Você não ia brincar com Belinha?
Marisol - Eu ainda
vou. Nós ficamos de jogar totó com o
Toninho. Mas... É que eu estava pensando...
Vô Luiz - Já sei. Lá vem suas perguntas 1,2,3 e etc. –
comentou ele rindo.
Marisol - É, mais ou menos.
Vô Luiz - Tudo bem, meu bem. Vamos lá. Pergunta número 1.
Marisol - Como é que você consegue catar feijão se você não
enxerga, vô?
Vô Luiz – Dizem que quando nos falta um dos sentidos, os
outros ficam mais apurados para que possamos perceber melhor o que está ao
nosso redor.
Marisol - E como o senhor faz?
Vô Luiz - Eu uso a ponta dos dedos para perceber se é uma
pedrinha, um feijão que já tem um furinho, e aí eu vou separando o que está bom
daqueles que não devem ir para a panela.
Marisol - Agora eu entendi porque é sempre o senhor que cata
o feijão.
Vô Luiz - Por quê?
Marisol - Por que o senhor cata com mais cuidado e percebe
melhor.
Vô Luiz - Muito obrigado pelo elogio: sou o melhor catador
de feijão da casa. – e deu uma sonora gargalhada.
Marisol - Vô, eu quero perguntar algo sério. – falou meio
preocupada com a brincadeira.
Vô Luiz - E o que pode ser tão sério assim?
Marisol - É que às vezes eu não sei explicar direito o que é
que eu já aprendi.
Vô Luiz - O quê, por exemplo?
Marisol - Se alguém me perguntar o que é espírito, o que eu
vou dizer?
Vô Luiz - Vai dizer o que é?
Marisol - E o que é?
Vô Luiz - Espírito é o ser inteligente da criação de Deus.
Mora no Universo, fora do mundo material.
Marisol - É só isso para eu falar?
Vô Luiz - Meu bem, você não pode falar sem entender, senão
vira um papagaio que fala sem raciocinar.
Marisol - Então me explica de novo.
Vô Luiz - Deus criou tudo que existe, não é?
Marisol - Sim. O que o homem não criou é obra de Deus, que
nem as flores, as montanhas, o céu, o mar, os bichos – de verdade, não é? porque tem bicho de mentirinha – as
pessoas...
Vô Luiz - Isso mesmo. No nosso mundo material temos tudo
isso que você falou. Se olharmos para o universo observando o sol, as estrelas,
outros planetas, tudo isso foi criado por Deus e está fora do mundo material
aqui da Terra, não é?
Marisol - É.
Vô Luiz - E os espíritos povoam o Universo fora do mundo
material.
Marisol - Como assim?
Vô Luiz - Você vê espírito andando aí pelas ruas, aparecendo
na televisão dando entrevistas aos repórteres?
Desta vez foi Marisol que caiu na gargalhada.
Marisol - (risos) Ah, vô... Você tem cada uma... Claro que
não.
Vô Luiz - Então entenda que os espíritos existem e moram
fora do mundo material.
Marisol - Tá bom. Isso eu já entendi. Mas agora é a pergunta
2.
Vô Luiz - Manda, Solzinha, que eu estou afiado para
responder. – e chegou o rosto para perto da netinha.
Marisol - Vô, espírito é como?
Vô Luiz - Hum... Não posso dizer que ele não tenha matéria,
como nós temos no nosso corpo, nas coisas da natureza.
Marisol - Como a água?
Vô Luiz - Como a água, como as plantas...
Marisol - Como o vento! – e assim dizendo, soprou no rosto
do avô como ele já fizera com ela e
começou a rir enquanto o avô continuava também sorrindo.
Vô Luiz - Isso mesmo, Solzinha. Como o ar, cheio de
moléculas.
Marisol - Mas... E aí?
Vô Luiz - Aí vamos entender que o espírito não tem essa
matéria que conhecemos aqui na terra porque nós estamos encarnados. Vamos dizer
que eles não têm corpo, esse corpo que temos: são incorpóreos.
Marisol - Hum...
Vô Luiz - Bem, vamos lá para o português.
Marisol - Seu Zé da quitanda?! A gente vai à quitanda agora
pra quê?
Vô Luiz - Quitanda? Quem falou em quitanda, Marisol?
Marisol - O senhor. O senhor não falou que a gente vai pro
português? É o seu Zé.
Vô Luiz - Não, não é o seu Zé. Estou me referindo à nossa
língua materna. Preste atenção! Quem não é feliz é infeliz. Uma terra que não
produz é uma terra improdutiva. O que não tem matéria é imaterial.
Marisol - Igual a Deus – acrescentou correndo, começando a
cantar.
“Imaterial,
só espírito Ele é...”
Vô Luiz - Bem lembrado, Solzinha. Então, vou fazer algumas
perguntas.
Marisol - Pode mandar. – disse toda compenetrada, olhando
diretamente o vô nos olhos sem brilho.
Vô Luiz - O que tem
corpo é corpóreo. O que não tem corpo é...?
Marisol - Hum... – torcendo a sobrancelha concentrada. – Já sei! Incorpóreo.
Vô Luiz - Certo! – aplaudiu o vô.
Marisol - Engraçado... pensar que alguém não tenha corpo. –
Marisol ficou meditando no que acabava de ouvir.
Vô Luiz - Mais tarde voltaremos a conversar sobre isso, está
bem? – acrescentou o avô percebendo que pairavam algumas dúvidas na cabeça
cheia de cachinhos.
Marisol - Vô, eu tenho que sair pra falar com a Belinha.-
Marisol estava com pressa, mas muito curiosa sobre a conversa com o avô.
Vô Luiz - Ótimo! Mais tarde... – Ele quis falar, mas ela nem
deu tempo do avô concluir.
Marisol - Mas, vô, espírito tem fim?
Vô Luiz - Não, Solzinha. O Espírito, depois de criado por
Deus, não terá fim nunca mais. Vive pra sempre. Lembra que já conversamos sobre
isso, quando você estava triste por causa de umas coleguinhas?– concluiu o avô
que queria terminar seu serviço.
Marisol – É mesmo... Tinha esquecido. Vô, quem vive pra
sempre é o quê?
Vô Luiz - Tenta.
Marisol - Não sei.
Vô Luiz - Eterno. O que morre é o corpo.
Marisol - Ah...
Vô Luiz - Vamos lá. Eu ajudo. O corpo morre. Quem morre é mortal. E quem não morre?
Marisol - Quem não morre é... imortal.
Vô Luiz - Mais uma vez a senhorita está...correta!
Marisol - Uau! Que legal!
Imortal! Legal! Imortal! Legal! – e ficou cantando sem parar.
Neste
momento, a mãe de Marisol entrou na cozinha com as bolsas que trazia da
quitanda e percebendo que a filha ali estava fazendo suas inúmeras perguntas
assim falou:
Vô Luiz - Marisol, deixe seu avô terminar o serviço que ele gosta de fazer, minha
filha.
Marisol - Tá bom. Obrigada, vô. Entendi direitinho.
Deu um beijo na bochecha do avô deixando-o livre para
terminar sua tarefa, e lá se foi matutando no que tinha aprendido com o avô, e,
como sempre, contar as novidades para Belinha que estava jogando Totó com
Toninho.
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